Mulher-Maravilha

Jornalista consagrada, Ana Paula Padrão fala sobre seu primeiro livro, a vida e a carreira

Com mais de 27 anos de carreira e dezenas de prêmios conquistados, Ana Paula Padrão lançou seu primeiro livro: O amor chegou tarde em minha vida. Nele, ela revela o percurso de sua vida profissional. A apresentadora abre o jogo e revela que, por trás da jornalista renomada, há uma mulher profundamente humana, que amadureceu tendo de lidar com inseguranças, dores, desejos e sonhos não realizados. Nesse livro comovente e inspirador, Ana fala sobre uma carreira pouco convencional, a família, o casamento e o futuro da mulher brasileira. Mas, um nossa entrevista, fomos além do livro. Confira!

Lucas Machado: Você nasceu, passou a infância e morou até os 30 anos em Brasília. Conte-me um pouco de sua história na capital brasileira?

Ana Paula: Foi uma infância tranquila. Já na minha juventude havia os movimentos londrinos que chegaram tardiamente ao Brasil. Mas eu os acompanhava e, na verdade, era meio dark – até mesmo pela cor da minha pele, assim como conto no livro. Minha infância, adolescência e formação profissional foram em Brasília.

 

LM: Como foi que o jornalismo entrou em sua vida?

AP: Comecei em Brasília fazendo programa na Rádio Nacional, que tratava de assuntos econômicos direcionados para os produtores rurais. Graças a isso, comecei a entender de abastecimento, armazenagem e de como o Governo dava garantia aos produtores. Quando veio a crise de abastecimento, depois do Plano Cruzado com o Funaro, já sabia bastante de economia. Fiquei 10 anos cobrindo de tudo, todos os tipos de matérias. Saí de lá e fui ser correspondente internacional da Rede Globo em Londres e, depois, em Nova York.

 

LM: Mesmo fazendo todos os tipos de matérias, sua carreira foi sempre mais voltada para política e economia. Por ter vindo da capital brasileira, isso te influenciou?

AP: Com certeza me influenciou bastante. Naturalmente, eu já tinha uma noção básica de economia. Depois disso, cobri o Banco Central e todos os planos econômicos. Brasília, nessa época, era uma fonte inesgotável de informações de economia. Teve Proer e Código de Defesa do Consumidor e, naquele tempo, estávamos no ápice da redemocratização. Por isso, havia uma fonte inesgotável de assuntos de economia.

 

LM: Quando você saiu da Rede Globo, já tinha programado o que faria?

AP: Sou uma pessoa estrategista de carreira, não arrisco 100%. Na verdade, foi um detonador. Eu sabia que queria sair, precisava parar de me definir com o trabalho e estava muito insatisfeita no contexto pessoal. Precisava voltar para minha vida pessoal, para o meu marido. Ali foi um misto de duas coisas. Eu tinha uma ótima proposta e queria trabalhar com mulheres, não tinha a mínima ideia de como seria.

 

LM: Hoje, a Ana Paula é empresária. A correria acabou?

AP: Tenho duas empresas: a Touareg, agência de comunicação interna, com sete anos no mercado e que me demanda trabalho estratégico; e o Tempo de Mulher, o maior portal da mulher no Brasil. Nele, falamos com a mulher média brasileira, e tenho mais tempo de pesquisa do que para empresa. No primeiro mês tivemos 23,5 milhões de acessos, e nossa média por dia ultrapassa 26 milhões. Temos o Fórum Mundial para Mulheres Executivas, que está na quarta edição. Sempre tive muitas propostas de palestras dentro e fora do Brasil e, como estive um ano fora da TV, tive mais tempo até para poder fazer as palestras e escrever o livro.

 

LM: E o jornalismo?

AP: Existe hoje um problema que afeta não só a TV como os outros veículos de comunicação: o modelo do negócio está desgastado. A TV vivia dos 30 segundos de anúncios; o jornal, dos anunciantes de página e meia página; e o rádio, dos spots. O dinheiro está mais pulverizado em várias ações diferentes, e não apenas na publicidade clássica. Você não faz mais comunicação clássica, que é o reclame. O modelo que ia direto para a mídia está rateando. Hoje, a briga por audiência é dura e atrapalha a linha editorial.

 

LM: No livro, você usa o termo “Mulher-Maravilha”. O que é ser essa mulher?

AP: Nós mulheres dos anos 1980 não tínhamos um modelo feminino para nos espelharmos quando entramos no mercado de trabalho. Tivemos que copiar o homem. Aí você fica presa, não pode chorar, não pode acolher o filho numa situação de emergência e não pode matar a segunda-feira, porque o fim de semana foi dormir mais tarde. Isso nos contaminou e masculinizamos nossas atitudes.

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