Belo Horizonte, 25/03/2019

A cultura de um povo

por Redação | publicado em quarta, 23 de janeiro de 2019



Festas de Agosto, de Montes Claros, serão realizadas de 19 a 23 e têm a religião como grande fundamentação

Resistir ao tempo é o grande desafio para a conservação histórica de um povo. A riqueza cultural e as manifestações populares são raízes que mantêm viva a linhagem de gerações e, assim, caracterizam os habitantes e seus descendentes. Em Minas, a cultura religiosa é um dos grandes braços do estado, que sobrevive e respira, desde o Período Colonial, as heranças deixadas pelos antepassados. E é impossível falar dessas manifestações sem mencionar as festas de rua em homenagem e agradecimento aos santos protetores.

Em Montes Claros, essa cultura de fé continua mais viva do que nunca e resiste aos percalços graças à fé do povo e aos ensinamentos dos antigos, que passam as ideologias de geração em geração. Na cidade, a tradição é tão forte, que as Festas de Agosto (festas religiosas em homenagem à Nossa Senhora do Rosário, ao São Benedito e ao Divino Espírito Santo) foram consideradas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como um dos grandes patrimônios culturais de Montes Claros, além de ser uma das manifestações mais ricas e antigas do estado.

O coordenador das Festas de Agosto, João Pimenta dos Santos (o mestre Zanza), 82, ainda hoje, depois de anos à frente do evento, derrete-se ao falar de tanta beleza: “Bonito é o dia de festa, é uma loucura! Eu, que já tenho uns dias que mexo com isso [ao todo, são 78 anos], quando vejo aquela meninada mexendo com Catopê [festa folclórica], fico louco”. E esse é também o sentimento compartilhado por José Expedito Cardoso do Nascimento (o mestre Zé Expedito), 72. “Tenho 63 anos de Catopê e 43, de Folia [Folia de Reis]. Meu pai também era do Catopê. E tem 30 anos que tomo conta do grupo com a maior satisfação. Tenho muita gratidão ao São Benedito e sou devoto dele e de todos os santos reis. Ah! Eu também sou folião de reis”, fala orgulhoso.

As Festas de Agosto ─ que, este ano, serão realizadas de 19 a 23 de agosto ─ estão vivas na cultura do município há 176 anos e têm fundamentação religiosa. “É parte do catolicismo popular da cidade. Festas em honra à Nossa Senhora do Rosário, ao São Benedito e ao Divino Espírito Santo. Elas representam essa parte importante da cultura popular brasileira”, explica Raquel Mendonça, gerente de Preservação e Promoção do Patrimônio Cultural de Montes Claros, na Secretaria Municipal de Cultura do município.

E os grandes astros dessa festança são os Catopês, Marujos e Caboclinos, que representam a origem do povo brasileiro: os Catopês simbolizam a linhagem africana, com Zumbi dos Palmares; os Marujos, a descendência europeia, e exaltam as aventuras dos marinheiros portugueses nos grandes navios; e o Caboclinos ou Cabocladas, por sua vez, as raízes indígenas. As canções são entoadas pelas ruas da cidade, e os festejos contam também com missas, bênçãos e levantamento de mastros.

Segundo o secretário Municipal de Cultura e presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Montes Claros (COMPAC), Carlos Muniz, as Festas de Agosto são a maior expressão cultural da cidade, no Norte de Minas Gerais. “São festas de origem religiosa, que se iniciaram com a devoção dos escravos no século XVIII, a partir da fundação das Irmandades do Rosário dos Homens Pretos, nas regiões mineradoras de Minas. As grandiosas Festas de Agosto de Montes Claros atraem a atenção e o interesse de muitas outras partes do país e exterior, tamanha a sua beleza e importância cultural", conclui.

Realização das festas

As Famílias Festeiras são as responsáveis pela realização dos Reinados de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, bem como do Império do Divino Espírito Santo. Elas contam com o apoio de funcionários da equipe de Eventos e Serviços Gerais da Secretaria Municipal de Cultura de Montes Claros na organização dos cortejos, e os mordomos ou mordomas são os responsáveis pelo levantamento dos mastros dos respectivos santos homenageados.

GRUPOS DAS FESTAS DE AGOSTO

No total, são três os grupos de Catopês ou Congado/a de Montes Claros:

Primeiro Grupo de Catopês de Nossa Senhora do Rosário

Conta com cerca de 80 integrantes da comunidade do bairro Morrinho. O grupo é chefiado por mestre Zanza (João Pimenta dos Santos), 82, que começou nas festas como “catopê de colo”, aos 4 anos.

Segundo Grupo de Catopês de Nossa Senhora do Rosário

Chefiado pelo mestre João Faria, 68, o grupo concentra aproximadamente 60 integrantes, entre jovens e adultos, das comunidades dos bairros Vila Anália e Camilo Prates.

Grupo de Catopês de São Benedito

Chefiado pelo mestre Zé Expedito (José Expedito Cardoso do Nascimento), 72, tem uma média de 50 componentes das comunidades dos bairros Renascença, Clarice Athayde, Independência e Alterosa II.

Os grupos de Marujos são dois:

Primeira Marujada

Chefiada pelo mestre Tim (Iderielton Oliveira da Cruz), filho do grande e saudoso mestre Nenzinho (José Calixto da Cruz), que o antecedeu no cargo, da comunidade de Vila Ipiranga.

Segunda Marujada

Comandada pelo mestre Tone Cachoeira (Antônio Ferreira da Silva), que a assumiu após o falecimento do famoso mestre Miguel Marujo (sapateiro de profissão e Marujo de devoção), sendo Tone Cachoeira da região da Fazenda Mocambinho.

Caboclinhos:

A chefa do Grupo de Caboclinhos é Maria do Socorro Pereira Domingos, a Cacicona Socorro, da comunidade do bairro Vilage do Lago II. É filha do saudoso chefe da Caboclada, mestre Joaquim Pólo (Joaquim Pereira da Silva), dono de uma marcante voz (semelhante à do pai Poló). Socorro tem o apoio do irmão Dudu (Waldir Leal Pereira), que assume o posto de segundo chefe na condução dos Caboclinhos.

Os mestres do Catopê

Os olhos claros reluzem quando o assunto em questão é o Catopê. João Pimenta dos Santos, 82, o mestre Zanza, construiu sua trajetória de vida nas rodas de festejos de Catopês. A figura imponente de Zanza, que assume o posto de coordenador das Festas de Agosto de Montes Claros, é facilmente revertida quando ele fala do evento. Herdeiro de Catopê, Zanza começou na tradição ainda criança, aos 4 anos, e nem de longe pretende descansar ou deixar de saldar os santos e a cultura popular de seus antepassados.

A comprovação que Zanza respira e vive cultura está nas paredes da Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhas. As fotografias e referências da tradição se misturam com o ambiente da associação que, muitas vezes, é o local de moradia desse senhor – um dos grandes responsáveis por manter viva a história das Festas de Agosto. “Cada ano a festa fica mais bonita, e todo mundo fica cada vez mais animado. Todos esses catopês ficam muito alegres e todos eles começaram nas festas ainda crianças”, conta em tom carregado da habitual fala mansa e tranquila.

Zanza é pai de oito filhos, tem 20 netos, dois bisnetos, e confessa que fica louco quando vê as crianças da família com os instrumentos nas mãos, divertindo-se nas festas. Com a vestimenta dos Catopés, João Pimenta dos Santos encarna devidamente o perfil de mestre Zanza. Os capacetes são atrativos à parte do local, feitos especialmente pelo próprio Zanza, que faz questão de mostrar a beleza de cada um deles e não esconde a satisfação.

Este ano, o mestre completou 82 anos e, com os anos de experiência, veio um bom traquejo para lidar com a imprensa. Sentando na calçada e observando o movimento, ele esperava a chegada da equipe de reportagem. Entrou e mostrou “os retratos” na parede. “Todo mundo que vem aqui faz retrato meu. Eu nem sei de onde sai tanta foto”, diverte-se.

Essa emoção também é exposta por Expedito Cardoso do Nascimento, 72, o mestre Zé Expedito. O senhor embarga a voz, ao falar da relação de amor e devoção ao seu santo de coração, São Benedito: “Vixe! Fico emocionado demais! Tive um problema no fêmur, em setembro, e fiquei sem andar. Mas no dia 2 de novembro, eu já estava bom. Passei pela cadeira de rodas, pelo andador, mas no mesmo ano eu já estava bom. Melhorei, e deu tempo de ir para a Folia [Folia de Reis]”.

O pai de mestre Expedito deixou como herança a cultura no seio familiar. E com Sô Expedito, não foi diferente. “Na hora que eu for embora [morrer], vai ficar tudo aí. A gente vai chegando numa idade e vai ficando mais perto de ir embora. Tenho uma neta de 8 anos que já me pergunta qual o dia do Catopê e um neto de 1 ano e pouco que já começa a mexer quando escuta os batuques dos instrumentos”, orgulha-se.

A esposa do mestre Zé Expedido também participa de toda a logística. Cabe a ela a função de alimentar a trupe e manter tudo em ordem. “Ela não consegue ficar quieta e mexe o dia inteiro. Acorda às 6h e deixa o café pronto para todo mundo do Catopê”, fala em tom apaixonado da mulher.

João Pimenta dos Santos, o mestre Zanza

82 anos e 76, de Catopê. Coordenador das Festas de Agosto e presidente da Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhas.

Expedito Cardoso do Nascimento, o mestre Zé Expedito

72 anos e 63, de Catopê.

Paralelamente às Festas de Agosto, Montes Claros realiza o Festival Folclórico que, este ano, chega a 37ª edição. O evento conta com a participação de músicos, como Beto Guedes, e é uma idealização da Prefeitura Municipal de Montes Claros.


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