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As acolhedoras palavras de Deus

por Redação | publicado em quinta, 26 de julho de 2018


Em Araçuaí, dona Generina é uma das figuras mais populares e tem como bagagem dos 100 anos de vida muita sabedoria, fé e bondade

Por: Fernanda Martins

Foto: Roberto Bennati

Os ares de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, anunciavam que arte e a diversidade cultural seriam presentes em minha estadia na cidade – e meu feeling não se enganou. Depois de encarar mais de 5 horas de viagem (partindo de Ipatinga), eu e o fotógrafo Roberto Benatti chegamos ao município com “sede” de boas histórias.

No hotel Village das Minas (uma potência que não perde em nada para nenhum estabelecimento da capital), o prestativo Marcos foi o responsável por guiar o nosso roteiro jornalístico. “Vocês precisam ir ao mercado, às igrejas, e encontrarem dona Generina. Não sei explicar como chegar até a casa dela, mas é numa vila próxima, e qualquer um daqui sabe onde é. Dia desses, ela foi à Diamantina para um tratamento e rezou para os médicos num ônibus. Todo mundo saiu de lá chorando”, contou Marcos, e mais tarde eu descobri que não havia exagero na fala daquele homem.

E realmente Marcos estava certo, quando afirmou sem medo que “qualquer um” saberia nos explicar como ir até dona Generina. A cada esquina que parávamos, as explicações sobre os caminhos iam surgindo e, aos poucos, chegamos à vila. Contudo, como faríamos para encontrar a casa da tal mulher? “O senhor sabe onde acho dona Generina, uma benzedeira?”, perguntou meu colega Benatti a um senhor, que tratava do cavalo na calçada. “É claro que sei. Segue eu, vou mostrar.” Foi dessa forma que o homem subiu ao cavalo e nós, rapidamente, fomos atrás do rastro deixado por ele. Assim, encontramos a casa da famosa mulher de Araçuaí.

Quando chegamos, vimos que a porta da casa estava aberta (um sinal claro que convidava qualquer um para entrar), e logo a senhora veio nos receber na porta. Chamou-nos “para dentro”, com um olhar generoso como poucas vezes vi em minha vida. “Dona Generina, tudo bem? Estou atrás da figura mais famosa da cidade e quero saber um pouco de sua história”, falei, emendando (como de costume) uma frase na outra. “Eu? Famosa? Acho que não. Sou é difamada”, respondeu entre risos descontraídos e arrancando de nossos rostos sinceros sorrisos de felicidade, que se misturavam com a ansiedade de conhecer a história daquela mulher.

“Um cafezinho?”, ela perguntou. Eu – que até poucas semanas não suportava nem o cheiro de cafeína – não fiz feio e aceitei a bebida, que veio acompanhada de uma boa conversa. “Vamos entrar! Só não reparem na pobreza, que é a fraqueza que Deus dá”, declarou num tom de aceitação com a realidade que a vida lhe propôs. A casa, que ela mora sozinha, exala fé, e os quadros de santos nas paredes fazem uma união perfeita com as marcas no rosto da benzedeira.

Na cozinha, arrastamos a cadeira, e ela, sem cerimônias, revelou-me como começou a rezar e a falar das palavras de Deus. Dona Generina Isidoro da Silva completou, no dia 21 de janeiro, 100 anos – isso, se o escrivão ou os pais não tiverem errado a data do registro, como gosta de contar aos risos.

Entre um gole e outro de café, a simpática senhora me explicou que cresceu, casou-se e se criou na roça, no distrito de Campos, a “umas três léguas da cidade [Araçuaí]”. Muito religiosa, ela se lembra de quando começou a fazer as orações para fora. Na época, já tinha as duas filhas mais velhas – no total, teve 11 filhos, mas hoje são apenas cinco vivos. Hoje em dia, mesmo com as dores nas duas pernas, não deixa de ir à igreja e recebe todo mundo que chega em busca das palavras, isso porque “a palavra de Deus, se bem não fizer, mal que não fará”.

Perguntei-lhe como tudo começou, e a senhora me contou uma história a qual prendeu cada segundo de minha atenção. Segundo dona Generina, certa vez, um rapaz parou no barraco em que ela e o marido moravam e disse que chegou até lá guiado pelo “cantar do galo”, pois ele vivia andando pelo mundo. “O rapaz chamou o meu esposo pelo nome: ‘Boa noite, Leônidas!’”. Leônidas, por sua vez, nunca o tinha visto. “Não conheço esse menino. Como ele sabe o meu nome?”, falou o senhor surpreso. “Oi, Leônidas! Acertei o seu barraco pelo cantar do galo. Quero que você me dê um agasalho”, suplicou. “Oh, moço, cheguei agora a pouco neste barraco. Sou pobre e não tenho nada”, respondeu o esposo de dona Generina. “Leônidas, você é pobre das coisas, mas é rico do coração”, afirmou o jovem, como se conhecesse o coração daquele homem e de sua família.

Leônidas lhe deu um agasalho, um jantar, e deixou o homem descansar um pouco, já que logo partiria em viagem. “Leônidas, você pode trabalhar. Só quero que você me deixe descansar por hoje. Pode ir trabalhar, porque quem trabalha Deus ajuda pelo pão de cada dia. Só quero descansar, porque vivo cansado, vivo pelo mundo.” E assim aquele homem agradeceu. Como Leônidas trabalhava na roça ao redor do barraco, foi para o trabalho e, mais tarde, quando voltou, acendeu uma fogueira. O rapaz começou a contar histórias.

No fim, o jovem misterioso fez uma oração e, num certo momento, disse: “Leônidas, você e sua esposa vão guardar essas palavras na cabeça. Um dia, os seus irmãos vão procurar ela e você. Não neguem ajuda. A primeira pessoa que vai chegar até vocês, para dizerem as palavras de Deus, vai ter uma criança – e não neguem não. Se alguém escutar as palavras e gostar, meter a mão no bolso e tirar uma caixa de fósforos, não pense que essa pessoa vai te oferecer aquela caixa. Ela vai tirar um palito de fósforo e te oferecer aquele palito. Você não pega com uma mão só, pega com as duas mãos e diz: ‘Deus que te ajude e que nunca te falte esse palito de fósforo’. Se a pessoa for ao pé de uma árvore e pegar uma folha, a mesma coisa. ‘Deus vai te ajudar e que nunca falte essa folha de árvore para você’. Aquele que faz para o próximo empresta a Deus. Vocês vão comer a palavra de Deus, mas não vão vender a palavra de Deus. Agora, quem escutar a palavra, gostar, e te der qualquer presente, que te der um palito de fósforo, você estende a mão e agradece”.

No dia seguinte, dona Generina nos contou que o homem, chamado José, foi embora e que Leônidas viajou com ele “meia légua”, mas que, depois daquele dia, nunca mais ninguém teve notícia dele. A benzedeira se lembra de que o rapaz não carregava água e não tinha um chinelo sequer no pé. “Sempre que faço as orações e falo ‘meu Deus e meu senhor’, vejo as feições daquele homem, do jeito que ele era. Sempre, na hora que vou rezar, vejo a feição dele.” Nesse momento, perguntei se José era, na verdade, um anjo. “O povo fala que era. Só quem sabe é Deus, minha filha. Mas sempre que rezo, vejo as feições dele”, respondeu-me, levantou rápido e saiu andando em direção a um quarto. “Se vocês querem escutar as palavras de Deus, venham até aqui.”

Confesso que segui até sem perceber os passos daquela mulher e, ao ver sua fé, já tinha certeza que sairia dali protegida. Mas, depois de escutar “as palavras”, entendi o motivo pelo qual os médicos de Diamantina não conseguiram segurar o choro, depois de receberem as orações de dona Generina – como contou Marcos. Ainda estática com as palavras, depois da oração, olhei para Benatti, respirei fundo e abracei aquela boa senhora. “Que Deus proteja a sua saída e sua entrada. Que Deus te proteja. A sua sorte é a sua felicidade.” Ela me abraçou e arrancou lágrimas dos meus olhos. Fomos embora com o coração limpo e vi, pelo retrovisor, o olhar singelo daquela mulher, que ficou no portão até que o carro desaparecesse na poeira da terra.


“Meu Deus e meu senhor, hoje é quinta-feira e já é quase meio-dia. Estou chamando em nome do Senhor. Estou chamando o nome do Senhor três vezes para entregar o dia de hoje. Chamamos em nome do Senhor, não é em vão. Na fé e na esperança, Roberto mais Fernanda vão receber toda graça que eles dois merecem, porque o sangue do Senhor tem toda força e poder para livrar eles dois enquanto eles viverem. Perdoai nossos pecados e aumentai nossa fé. Nossa Senhora das Dores é que vai livrar todas as dores que cada um deles sente. Vai entrar dentro da casa deles, com os seus trabalhos e seu negócios, nas seis esquinas que ficam injúria, inveja e alguma desavença. Vai dando a eles muita paz e sossego e vai realizando tudo que eles dois desejam. São Jorge guerreiro, assim como você venceu sua guerra com a espada de prata, ajuda eles a vencer sua luta. Só que eles dois querem vencer na parte de nosso senhor Jesus Cristo. Eles vão vencer na parte do senhor Jesus Cristo, mas sem choro, sem lágrimas e sem desespero. Que o sangue de Jesus livre eles dois!”


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