O conhecimento no século 21

Desde 2012 como reitor da universidade Fumec, o professor doutor Eduardo Martins de Lima possui trajetória de 27 anos dedicados à instituição. Formado em Psicologia e Direito, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia e Política pela UFMG, Eduardo está na Fumec desde 1985. Sua gestão de grandes feitos e conquistas para a universidade finaliza em 2016 e, numa entrevista para revista Exclusive, mostrou por que as novas ferramentas do século 21 podem (e devem) transformar para melhor a educação no Brasil. O professor defende e acredita na evolução do conhecimento junto à tecnologia da informação.

Revista Exclusive: Qual é o principal papel de uma universidade?

Eduardo Martins: A universidade, conforme a própria legislação exige, tem que apresentar atividades relacionadas com ensino, pesquisa e extensão. Esse é o pressuposto fundamental − além de ter também algumas qualificações específicas. Em pleno século 21, pensando no contexto brasileiro, a universidade tem que, antes de tudo, produzir conhecimento − conhecimentos científicos relevantes sobre a sociedade em que ela está inserida. Mas não basta só o conhecimento, porque tem várias formas de repassar o conhecimento. Tem que existir rigor e metodologia.

Porém, o mais importante: a universidade não pode ter o olhar voltado apenas para o mercado de trabalho. É preciso formar cidadãos capazes de transformar a sociedade. O conhecimento tem um papel fundamental. Depois da fase da aprendizagem, é a devolução desse conhecimento para a sociedade. O que digo é: não basta só formar técnicos específicos de certa área. Essas pessoas têm que saber e querer usar isso em prol da sociedade. Então, esse exercício da cidadania é fundamental também. Os lados técnico e cidadão têm que estar conciliados em um ambiente de universidade.

RE: O que torna a universidade mais atrativa para essa nova geração de jovens (nomeada geração Y)?

EM: Olha, eu diria que, acima de tudo, os estudantes que vêm das gerações y e z, na verdade, procuram formas diferentes de interação. Vivemos em um mundo que não tem mais fronteiras. Hoje, a informação e o conhecimento são instantâneos. Não há fronteiras temporais para a difusão deles e independe da distância física. Graças à tecnologia da informação, hoje, as coisas são simultâneas. Tudo acontece e repassa muito rápido. E o jovem de hoje busca diversas formas de interação. Portanto, dentro de uma sala de aula e outros espaços que compõem uma universidade, tem que ter um mecanismo de atração para os jovens que estão o tempo inteiro conectados.

O fato de ele estar no celular ou no tablet não quer dizer que está desatento à sala de aula. Na verdade, tem tempo para tudo. E o interessante é que, se surge uma dúvida, o próprio professor já fala para consultar algum site, por exemplo, ali na hora. Isso tem acontecido cada vez mais. É possível fazer essa consulta imediata. O ambiente universitário deve ser mais interativo, não no sentido da permissividade, mas o professor tem que criar condições de interação que desafiem os estudantes o tempo todo. E é utilizando as tecnologias da informação.

Eu, por exemplo, tenho costume, nas salas de mestrado em que atuo, ter grupos em Whatsapp − uso a plataforma para interação da turma, para corrigir algo e estar sempre compartilhando alguma informação. Nós, professores, temos que usar cada vez mais a interatividade e a tecnologia da informação, para tornar o espaço atrativo e que esteja conectado no tempo. A universidade tem que conseguir quebrar o paradigma do modelo antigo de educação, conservador e linear. Precisamos também despertar nos alunos sempre o interesse de investigação, de criatividade, de tolerância às diferenças e por aí vai. Tantas coisas mudaram. Temos acesso a tantas ferramentas modernas e diferentes. Essa técnica do cuspe e giz já não se encaixa mais.

RE: O desafio para o que chamamos de conhecimento hoje seria mesclar a tecnologia com a educação?

EM: Sim. E é mais do que isso. É colocar a tecnologia da informação a serviço de uma educação que seja revolucionária, que consiga transformar os estudantes em sujeito do seu próprio processo de aprendizagem. Eles precisam ser provocados a pensar, a refletir, a ler e a escrever. Não podem depender da figura presente e constante do professor. Ele precisar ir além. Tem que estar instigado a perguntar e a refletir o tempo inteiro. E importante: o estudante tem que saber trabalhar em grupo. Temos que passar a produzir em rede, em processos cooperativos e coletivos. Muitas vezes, a genialidade é um ato individual e solitário, mas os estudantes precisam ser mais solidários e repartir esse conhecimento para produzir mais interação e mais resultados coletivos em um ambiente cooperativo.

RE: Você falou muito do professor e da presença dele em sala de aula. Queria saber um pouco sobre os cursos a distância. O que leva um estudante a optar por cursos on-line? Quais as vantagens?

EM: Estamos vivendo um processo mundial no qual a tecnologia da informação veio para ficar. Hoje, 20% dos estudantes de nível superior estão em cursos a distância. As vantagens disso são muitas. Séries históricas do Ministério da Educação apontam que o aluno de EAD tem desempenho superior ao do presencial, em função do que o ensino exige dele em disciplina e dedicação. Para a universidade, a vantagem é que podemos nos inserir num cenário mais amplo e competir nacionalmente. Para a sociedade, o principal benefício é que há inúmeros municípios sem condições de ter um ensino presencial, mas que pode acompanhar o ensino a distância em polos de educação e com o suporte do material disponível na internet. Essa democratização da educação é muito importante. E não pensem que a EAD é mais fácil. Um reitor do Pará costuma dizer que a distância estão os nossos alunos da sala de aula, que respondem à chamada e vão embora. Na educação a distância, temos controle tecnológico efetivo de todas as atividades, temos relatórios individualizados que, muitas vezes, é quase impossível de se ter no curso presencial.

RE: Você acredita que os cursos presenciais possam deixar de existir, dando espaço só para os a distância?

EM: Não. Acho que o ensino a distância tem crescido muito ao longo do tempo. Está ainda em fase de romper paradigmas, como nos cursos nas áreas de saúde. Ainda tem muito que superar. A ideia é crescer a oferta de disciplinas dentro dos cursos presenciais e também aumentar a diversidade de cursos a distância. Mas mais do que isso, acho que, ao longo do tempo, vamos começar a compartilhar dos dois métodos de ensino. Uma não exclui a outra. A vantagem da educação on-line é levar o conhecimento mais longe. Espero que continue crescendo, em especial preservando a qualidade e facilitando o acesso, democratizando o acesso para o ensino superior brasileiro.

RE: O que significa ser uma universidade inovadora na educação?

EM: Ainda acho que estamos convivendo com um sistema de ensino muito atrasado e retrogrado. Instiga pouco o jovem, em particular no ensino superior, para que ele seja curioso no sentido de investigar, perguntar, questionar, querer respostas e buscar caminhos alternativos. Ainda temos um modelo ultrapassado, centrado muito no professor. Precisamos centrar a aprendizagem no aluno, de forma que a educação seja uma ferramenta de emancipação do ponto de vista da reflexão e da produção de conhecimento. Que levem isso para a sociedade e que possa gerar soluções para o desenvolvimento social e econômico do país.

Por mais que existam tecnologias da informação nos dias de hoje, isso é apenas o meio. Temos que pensar na finalidade da educação: formar profissionais que possam estar atualizados de acordo com a necessidade do mercado (aquele camarada que atua de forma transformadora). Ainda temos um viés repetitivo na educação, que leva a uma certa acomodação por parte do estudante que, na verdade, deveria ter uma inquietude natural. Precisamos despertar empreendedorismo. Essa é a palavra do século, negócios que tragam diferença para a nossa sociedade. Fazer diferença em onde ele [o profissional] atua, e não atuar simplesmente por atuar.


 

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Por: Raquel Dutra

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