Um brinde merecido

Para narrar a história de Emerson de Almeida é preciso lançar mão de uma daquelas anedotas contadas por nossas avós:

“Três pedreiros estavam construindo uma parede. Quando perguntados sobre o que faziam, o primeiro contou, com ar de desânimo, estar subindo uma laje. O outro disse estar apenas colocando tijolos. E o terceiro afirmou, com firmeza e brilho no olhar, estar construindo uma linda, grandiosa e bela catedral”.

Não entendeu? Emerson é o terceiro pedreiro. Um homem que sempre carregou aquele brilho no olhar e a vontade de desvendar o novo. E foi isso que ele tratou de fazer. Jornalista de formação, criou uma das fundações mais respeitadas de toda a América Latina. Apontada pelo jornal Financial Times, em 2014, como a melhor escola de negócios, a Fundação Dom Cabral completa neste ano 40 anos de atuação, mas não pense que nas próximas linhas esse será o tema central. Hoje, o diretor estatutário da FDC mostrará a sua faceta de produtor de vinho, mais precisamente de seu rótulo Gracia La Vida – um Malbec elegante e robusto.

REVISTA EXCLUSIVE: Após criar e presidir, por 36 anos, a Fundação Dom Cabral, você iniciou a sua atuação como produtor de vinho. Como se deu esse processo?

EMERSON DE ALMEIDA: Não é possível pensar na minha vida sem falar na fundação. Ela é quase um ente da família, uma espécie de filha que foi crescendo e ganhando o mundo. Recordo-me bem da época em que a FDC era ainda um sonho numa sala pequena (para não falar mínima). Por isso, quando decidi deixar a presidência em 2009, comecei a pensar em atividades que pudesse me dedicar e gastar as minhas energias. Aos poucos, fui encontrando no vinho uma possibilidade de ocupação. Apaixonado pela iguaria desde sempre – e com elos familiares na produção, com meu avó e meu pai –, fui alimentando esse desejo de ter meu próprio rótulo. O grande start, contudo, veio após eu conhecer o The Vines of Mendonza, uma espécie de condomínio para produção de vinho, que conta com estrutura e supervisão de uma equipe especializada, tudo isso na região Valle do Uco, na Argentina. Ao chegar naquela maravilha de lugar, senti que ali seria possível engarrafar meu sonho e transformá-lo em realidade. Decidi, então, entrar nessa e comprei 1,6 hectares de terra para iniciar a produção. As primeiras garrafas saíram em 2011, após um trabalho conjunto com meu sócio Luiz Eduardo Ferreira. A primeira safra foi especial e inaugurou o Gracias a La Vida.

RE: Como se deu a escolha do nome do rótulo?

EA: Acredito que por trás de toda taça de vinho exista um momento de confraternização, reunião e celebração de amigos e familiares. Mesmo que pareça corriqueiro e imperceptível, instantes como esses nos fazem brindar e agradecer pela vida e pela união. E, sem dúvida nenhuma, é este o verdadeiro papel de toda bebida: reunir, celebrar e agradecer. Além disso, queria eternizar a alma argentina dos tangos e das variações latino-americanas.

RE: Apesar de ter produzido seu primeiro vinho apenas em 2011, você afirmou ter uma grande vivência nesse universo. Como foi absorvendo conhecimento no mundo da enologia?

EA: Ao longo da minha trajetória, fui aprendendo e somando conhecimento em tudo que fazia. Como já admirava a iguaria (desde meus tempos de estudante na França), estava sempre buscando informações. Nos últimos 20 anos como presidente da FDC, viajei muito e, a cada novo país, já dava uma olhadinha se tinha um vinhedo ou uma região produtora. Visitei diversas vinícolas no mundo todo: Nova Zelândia, Austrália, Portugal, França, China, EUA, Argentina e tantas outras. Em cada visita, eu me atentava às técnicas de produção, às propriedades e à logística desde o primeiro processo. Além disso, sempre que podia, fazia cursos, participava de degustações e eventos relacionados. Assim, quando iniciei a produção do Gracias a La Vida, estava um pouco rodado nesse universo, com uma estrada já percorrida.

OLHO: “Encaro o meu trabalho de produtor de vinho como uma continuação da minha trajetória e da minha busca incessante de proporcionar produtos à sociedade, sejam eles cursos ou um bom vinho.”

RE: De que maneira a sua experiência à frente da FDC lhe auxilia como produtor de vinho?

EA: Como gestor, acredito que a minha vontade de oferecer sempre o que há de melhor e de mais relevante pode ser um ponto de convergência entre as duas tarefas. Na FDC, sempre me atentav

a para a possibilidade de fazer a diferença, de pensar fora da caixa, e à frente do Gracias a La Vida continuo com esse pensamento. Falando nisso, encaro o meu trabalho de produtor de vinho como uma continuação da minha trajetória e da minha busca incessante de proporcionar produtos à sociedade, sejam eles cursos ou um bom vinho.

RE: Após conhecer diversos países do mundo, você escolheu a Argentina para produzir o seu primeiro rótulo. Qual o grande diferencial da localidade?

EA: Aquela região é especial. Não tem como não se render à beleza dos campos e ao clima propício para a produção da uva Malbec. É engraçado pensar que essa uva tem como local de origem a França, mas que, devido à excelente adaptação a solos sul-americanos, países como Argentina, tornou-se o reduto e a referência de produção. Aponto também a identificação de todo a minha família. Enxergamos ali um espaço para nos confraternizar e vivenciar momentos só nossos, seja curtindo a estação de esqui próxima ou aproveitando os restaurantes. Minha esposa e meus filhos se encantaram com tudo, chegando a comparar aquele espaço com um pedacinho do céu. Acho que com um depoimento desses não tinha como não se entregar, não é mesmo?

RE: Quais as características do Gracias a La Vida Malbec Gran Reserva?

EA: Um vinho complexo, com força e frescor, acidez muito marcada, taninos potentes e suculentos, além de contar com aromas de madeira e frutas vermelhas maduras em compota. Classifico-o como um vinho elegante e perfeito com carnes vermelhas, massas com molhos vermelhos, queijos untuoso de sabor médio e carnes de caça. Vale ressaltar, ainda, sua propriedade Superpremium 100% Malbec, dispondo de um método de produção super-refinado. A modalidade Superpremium conta com um sistema de poda e irrigação diferenciado e minucioso, o que produz frutos com alto teor alcoólico e um vinho de altíssima qualidade. Essa diferenciação no processo, é claro, demanda um investimento ainda maior.

RE: O que torna o Gracias a La Vida um vinho especial?

EA: Estou certo de que a qualidade em todos os processos pode ser apontada como o grande diferencial. O método de poda é um exemplo disso. Se no sistema Premium planta-se e colhe-se seis pés de uva; no Superpremium, planta-se os mesmos seis, mas é colhido apenas um − isso tudo para eliminar aqueles frutos que possam apresentar algum defeito e elevar a qualidade final da bebida. O momento de barrica também é destaque, afinal, a iguaria fica cerca de 20 meses em barricas de carvalho francês em primeiro uso. Na fase final, o vinho sofre o processo de amadurecimento que pode chegar a 24 meses dentro da garrafa. Aliás, apresentamos uma garrafa exuberante e que permite vida ao vinho.

RE: Como é possível adquirir o Gracias a La Vida?

EA: Não sou nem pretendo ser um produtor de vinhos em grande escala. A minha produção é mínima se comparada aos grandes. Na primeira safra, de 2011, foram produzidas apenas 300 garrafas. Já em 2012, aumentamos para 900, e a mais nova, de 2013, já conta com 1.800. É uma evolução sim, mas nada tão grandioso que me permita ganhar algum tipo de mercado. Tenho uma parceria com o restaurante Província de Salermo e com uma adegaria. Algumas vendas ocorrem, também, via telefone ou e-mail.

RE: Existe algum sonho de expansão do rótulo?

EA: Se olharmos para trás, já houve uma expansão. Se, no começo, produzíamos 300 garrafas, hoje já contamos com 1.800. Porém, ainda disponho de uma produção de “garagem”, e é esse o meu intuito. Aqueles 2,8 hectares de plantação (1,2 recém-adquiridos) representam a minha liberdade, uma possibilidade de deleite pessoal.

RE: Além do rótulo, você possui outro projeto?

EA: Sim. A causa ambiental sempre me encantou e, desde o início da produção do rótulo, a minha ligação com a natureza se intensificou – o que melhorou muito a minha qualidade de vida. Assim, estou desenvolvendo, de maneira ainda discreta, o projeto Árvores da Vida, que tem como intuito espalhar o verde por toda parte. Apanho, chupo e planto as sementes de jabuticabeira (minha fruta predileta!), na região da Serra do Cipó. Quero que, daqui há alguns anos, ali se torne, quem sabe, um parque ecológico.

OLHO: “Hoje, percebo que ter escolhido a rentabilidade e excluído o lucro foi uma decisão correta.”

RE: Com um currículo tão extenso e rico, como criação da FDC, um rótulo de vinho, a publicação de um livro e, agora, como agente amigo da natureza, qual seria o seu parecer sobre a sua trajetória de vida?

EA: Meu grande objetivo sempre foi criar serviços, produtos ou empresas que possam servir à sociedade de alguma maneira. No caso da FDC, por exemplo, são 40 anos tentando aperfeiçoar e criar serviços verdadeiramente relevantes e úteis, sempre levando em conta o ser humano. Hoje, percebo que ter escolhido a rentabilidade e excluído o lucro foi uma decisão correta.


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Por: Giulia Machado

Foto: Roberto Benatti

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