Belo Horizonte, 21/08/2019

Desesperança da terceira idade

por Redação | publicado em quarta, 27 de fevereiro de 2019



Por Fernanda Martins

De acordo com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), idosos brasileiros com idade entre 65 e 84 anos representam um aumento de 9,56% de inadimplência. Para se ter ideia, em 2018, cerca de 9 milhões de pessoas acima de 60 anos deixaram de pagar as contas em dia

O andar chega com o movimento articulado pelas muletas que seguram a força do corpo. O boné esconde um semblante perdido. Esse é *Teodoro Moreira (68). Ele é técnico em eletrônica por profissão, mas não exerce a atividade há um tempo devido a uma dor certeira na coluna, que o tirou totalmente do mercado. Contudo, mal sabia ele que ali (na tão utópica aposentadoria) começariam dias regrados, com poucos recursos e lágrimas que tendem a descer aos olhos de um homem forte, que até tenta saltar um sorriso que, outrora, era rotina. “Eu tinha que receber na faixa de R$ 1,3 mil, mas estou acabando de pagar um empréstimo de R$ 700 e pouco”, tenta explicar sobre o contrato assinado, que mal sabe ele dos valores exatos.

Atualmente, o que restou para Sô Teodoro foi um bom quarto e o tratamento no Lar dos Idosos São José – casa de acolhimento para idosos localizada no bairro Olhos d’Água –, que tem uma rotina bem melhor do que os dias vividos num albergue na capital mineira. “Com o valor que me resta, não consigo alugar nem um barracão, muito menos comprar comida. Já faz muito tempo que ninguém vem me visitar, e acho que eles não sabem onde estou”, conta num choro silencioso, que deixa a boca trêmula e o coração palpitante.

O olhar sem rumo de Teodoro vai ao encontro dos cerca de 90% de idosos do Lar São José, que também se endividaram em empréstimos que mal sabem o valor, quantidade de parcelas e formato de contrato. A facilidade em adquirir os valores – seja numa ligação ou durante uma ida ao banco – é uma unanimidade entre os idosos do lar, que contam histórias as quais mostram a deficiência do sistema bancário brasileiro e a ingenuidade adquirida com o avanço da idade.

A presidente do Instituto de Defesa Coletiva, Lilian Salgado, e uma das produtoras do documentário Covardia Capital
A presidente do Instituto de Defesa Coletiva, Lilian Salgado, e uma das produtoras do documentário Covardia Capital

Segundo a presidente do Instituto de Defesa Coletiva, Lilian Salgado, a cada dia aumenta o número de idosos endividados no Brasil. “Há um estudo científico que comprova que apenas 7% das pessoas acima de 55 anos sabem fazer um cálculo complexo, e muitas instituições financeiras utilizam da fragilidade e ignorância desses idosos para empurrar produtos, como empréstimos e cartão de crédito consignado”, lamenta.

No caso do documentário Covardia Capital (https://www.youtube.com/watch?v=2R3QUOIRabA), dirigido por Lilian e Flávia Barbalho e produzido pelo Instituto de Defesa Coletiva, a história narrada materializa os milhares de relatos de idosos brasileiros. O casal Marlene e Vicente e outros idosos surgem com uma tristeza lamentável para falar sobre o caos em que a vida se transformou, depois de se afundarem em dívidas. Premiado em júri popular durante o Festival Internacional de Cinema de Trancoso, o curta mostra bem uma rotina que vai ao encontro dos inúmeros relatos ouvidos pelos corredores do Lar dos Idosos São José.

Coordenadora da casa, Ivanilde Estrela explica que a grande maioria dos “gostosos” – termo de tratamento que ela usa para cada idoso do lar – chega totalmente endividada. Teodoro, por exemplo, do total do benefício que tem direito, recebe hoje R$ 72, de acordo com Ivanilde. “Eu tinha um cuidador. Um rapaz jovem que sempre me perguntava sobre meu cartão [de benefício]. Eu sempre guardava tudo embaixo do colchão. Certo dia, todos os meus documentos e o cartão sumiram. Dias depois, tudo foi encontrado nas imediações do Parque Municipal. Fiquei com medo e não fiz Boletim de Ocorrência. Agora, tenho uma dívida que não fui eu que fiz nem sei até quando eu tenho que pagar”, fala num tom de desesperança.

Coordenadora do Lar de Idosos São José, Ivanilde Estrela. Foto: Ton Nettos

Quando indagado sobre quais os planos para quando o empréstimo terminar, Teodoro ameaça um sorriso, menciona o time de coração, a Libertadores e o que (de fato) deseja comprar com a retomada do poder de consumo: “Maio [deste ano] é a última parcela dessa dívida. Roupa é caro né, minha filha? Mas quero comprar umas roupas, boné e calçados”.

O caos na vida de dona Maria* Soares (72) tem cenas muito parecidas com as dos outros idosos. As dívidas foram crescendo (sem ela perceber) e, quando se deu conta, já não tinha condições mínimas de sobrevivência. “Eu não gosto de falar, e minha pele não está boa”, com uma cara de brava, ela começou a conversa. Aos poucos se soltou e me explicou que os empréstimos começaram para “compras de casa, depois que o banco ligou”.

“Como assim, dona Maria? A senhora pegou dinheiro no banco para comprar eletrodoméstico para a casa?”, perguntei-lhe. Rapidamente, ela fixou o olhar e me respondeu, sem pestanejar: “Não, minha filha, para comprar comida mesmo. Queria umas coisas diferentes e peguei um dinheiro no banco. Isso faz para lá de cinco anos, e eu ainda vou pagar por muito tempo”, conta com ares de desânimo, mas logo abriu o sorriso, quando se lembrou de que, por muitos anos, trabalhou numa casa de uma família tradicional da cidade e, assim, conquistou o benefício da aposentadoria: “O menino dela nasceu das minhas mãos. É uma família muito boa. Fui lá e pedi um lugar para eu morar. Não conseguia mais pagar o aluguel e me trouxeram para cá [para o Lar São José]. E eles ainda hoje vêm me visitar”, fala ajeitando o cabelo e se preparando para a foto.

Lilian Salgado relata que a penalidade amena torna casos como o de Maria, Teodoro e dos personagens da filmagem rotineiros. “Precisamos de normas e penalidades mais severas para obrigar as instituições financeiras a cumprirem o que é previsto na lei. A contratação do crédito consignado não pode ser feita pelo telefone, por exemplo. E a penalidade quanto a casos como esse tem que ser realizada pelo Banco Central, que é a entidade responsável por fiscalizar os bancos. Da mesma forma que o INSS também precisa fiscalizar”, afirma.

Os reflexos são extremos, tanto que, quando indagada sobre o que, de fato, aconteceu com a reserva financeira e a casa que tinha, a serenidade de dona Maria abre alas para uma confusão mental, que varia entre fantasia e realidade; e a senhora conta que “pessoas ruins entraram no barraco, levaram o dinheiro e tudo que ela tinha conquistado”.

A confusão de dona Maria não contrasta com a harmonia de *Antônio de Souza (78). O olhar passa uma tranquilidade percebida nos primeiros segundos de conversa, e o desapego é a inspiração para uma sociedade que se rende facilmente aos prazeres do capitalismo. A dívida do idoso é herança de gente que precisava mais de dinheiro do que ele. A fala vem sem demagogia de um senhor que teve a poupança da vida estourada; e o cartão, usado por membros da família. O triste mesmo para ele é que “depois dessa confusão”, as visitas pararam. “Agora, ninguém vem aqui. Eu acho que eles precisavam [de dinheiro] muito mais do que eu. Por isso, eles pegavam [olhar para baixo]. Não tenho ideia de como tiveram acesso a tudo. Não fiquei triste com isso não. Não tenho apego a dinheiro”, conta livre de tristeza.

A história relatada por Sô Antônio é validada pelos extratos armazenados por Ivanilde. Ela afirma que, há tempos, as visitas realmente sumiram e que, no benefício, os valores de empréstimo descontados consomem praticamente toda a renda do aposentado, o qual, por longos anos, foi funcionário de cartório.

Antônio se comunica bem, e tem no sorriso sem graça a evidência de que os empréstimos podem ter sido realizados “em família”. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de famílias que tem o idoso como provedor chega a 17 milhões. E cerca de 5,4 milhões de aposentados, entre 65 e 84 anos, estão com o nome negativado. Os dados foram levantados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), que asseguram que a grande maioria contraiu dívidas devido ao fácil acesso a empréstimos.

Lilian alerta que alguns desses empréstimos são contraídos por membros familiares, que utilizam o crédito de maneira indiscriminada. “Por um lado, há uma pressão de familiares; e, de outro, a irresponsabilidade na concessão de crédito. É necessário que o idoso não se sinta ameaçado. Ele precisa saber que não está sozinho e tem muita gente para ajudá-lo, como o Instituto de Defesa Coletiva, o Ministério Público, a Delegacia dos Idosos e várias outras entidades que podem protegê-lo. É importante que esse idoso aprenda a dizer ‘não’ e, em casos de ameaças, denuncie”, orienta.

O Instituto de Defesa Coletiva ainda é pouco utilizado no Brasil por uma questão cultural. Contudo, é importante que a sociedade civil se atente para a importância do órgão, que é capaz de combater abusos em massa. “Ações coletivas podem fazer com o que essas instituições financeiras tenham uma penalidade maior, por não cumprirem uma ordem judicial. O Instituto de Defesa Coletiva tem como foco divulgar essas ações coletivas, incentivar legitimados a ajuizarem mais e ensinar os próprios advogados a utilizarem o instrumento, que pode trazer uma grande economia para o Judiciário e tem um caráter educativo aos grandes litigantes”, finaliza Lilian.

*Os nomes das fontes foram preservados para segurança dos idosos.


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