Belo Horizonte, 13/11/2019

Espetáculo "Vida em Desborda", criado com a linguagem do Teatro Desessência, estreia em Belo Horizonte

por Redação | publicado em quarta, 21 de agosto de 2019



Com direção, concepção e atuação da filósofa, performer e criadora do Teatro Desessência, Clarissa Alcantara, o espetáculo Vida em Desborda estreita a relação entre o ato de performar e o fenômeno da incorporação, investigando a linha limítrofe de ultrapassagem entre um estado e outro, em sua absoluta diferença

Teatro, filosofia, performance, antropologia e esquizoanálise se unem em "Vida em Desborda", espetáculo performático com concepção, direção e atuação de Clarissa Alcantara, realizado em parceria com a videoartista Tereza Marinho. A turnê de estreia na capital já tem data marcada: dias 30, 31/08 e 01/09, no MAP, Museu de Arte da Pampulha, com entrada gratuita. Nos dias 13, 14 e 15/09 o espetáculo poderá ser assistido no Centro Cultural da UFMG. Além das apresentações, também serão promovidas duas rodas de conversa. Este projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

Há 30 anos Clarissa Alcantara criou o Teatro Desessência, uma linguagem teatral que se realiza a partir de atos/processos que propõem vivências intensivas à presença do ser-do-ator no ato. As ferramentas são o corpo próprio, o audiovisual e diferentes recursos de produção sonora que, em composição, colocam em questão a presença do corpo como representação e sua relação de afetação direta com o espaço, o som e a palavra na produção de imagens e sentidos. Os atos/processos são gravados em vídeo e, a partir deste material, se compõe a dramaturgia processual e híbrida desta obra teatral.

É neste contexto que surge o espetáculo “Vida em Desborda”, uma série performática composta a partir de 2 atos/processos-rituais, são eles: “RITO I grito no abismo cartas para minha morta” e “RITO II nota pública: “para acabar com o juízo…”. Em cada momento da apresentação, se instauram vivências efetivas com as forças humanizadas da natureza, compondo arte e filosofia em conexão com a dimensão espiritual, sem nenhuma abordagem religiosa instituída.

"Podemos dizer, num tom mais poético, que se trata de uma “gira” clandestina, que acontece pela potência dos encontros, livre dos territórios demarcados, pelo desejo emergente de expressão dessas forças espirituais que vibram interiormente e que se manifestam em nosso cotidiano de modo tão concreto e, muitas vezes, imperceptível. Uma vida que desborda seus limites mais sutis entre a dimensão sensível e o agir prático, entre a realidade concreta e uma “realteridade”, uma realidade outra, incorpórea, que escapa a lógica racional, pois as lógicas que lhe interessam são as que escapam de qualquer razão. É desta maneira que o Teatro Desessência opera em Vida emDesborda, pondo em giro as potências da vida que produzem, enfim, novas lógicas de expressão", explica Alcantara.

A dramaturgia da obra se revela durante os atos/processos, que são, em si, uma dramaturgia da presença: é o próprio acontecimento se inscrevendo no instante, o qual produz uma narrativa mutante e singular a cada apresentação. Para a concepção deste espetáculo, Clarissa inspirou-se em suas vivências espirituais com os cultos de matriz africana, aprofundando com sua prática artística e pesquisas filosóficas a relação sensível que perpassa seu corpo, sem se prender a nenhuma abordagem religiosa. A presença ritualística da performer, das sonoridades e das imagens, abre-se a uma variação de ressonâncias que se conectam às forças humanizadas da natureza, os Orixás, vibrando em seu corpo como uma multiplicidade de corpos intensivos ressonando paisagens sonoras. Trata-se de uma experiência limite entre os territórios da arte e do ritual, da vida e da morte, entre o mistério do sagrado e os acontecimentos de superfície do cotidiano, postos em relação com o desconhecido.

A artista-pesquisadora realiza um trabalho de intersecções com as teorias da contemporaneidade, criando, com este espetáculo, uma conexão inventiva entre uma certa mitologia das ancestralidades, vivenciada através dos cultos afro-brasileiros, e uma filosofia da natureza e da diferença, cujo encaixe de noções por ela proposto, coloca o problema da expressão como sendo, também, o que envolve, implica e exprime a Natureza naquilo que, nela, não é visível e que se faz existir na duração de um tempo desmedido, fluindoem nós e vibrando interiormente. Debruçada sobre esse mapa de conexões é que Clarissa catalisará todo o processo de criação dramatúrgica, adentrando à dimensão do sensível e do sensitivo para compartilhar com a plateia os mesmos questionamentos que despertaram o desejo de concretizar esta obra. "O espetáculo convida o público a viver um acontecimento, onde não se estará lá para ouvir uma história, mas sim, provar de um puro vivido; na duração do movimento das próprias forças da natureza que se fazem existir em cada um ali presente", conta.

Desde a criação do Teatro Desessência, em 1988, Clarissa Alcantara faz uso da fotografia e do audiovisual como dispositivos para o processo de criação. Assim ocorre também em Vida em Desborda, cuja produção audiovisual é assinada pela videoartista Tereza Marinho, "Meu encontro com Tereza foi fundamental à concretização desta experiência. Além de vídeoartista, Tereza é, também, psicóloga. A extrema sensibilidade do seu olhar imagético alcança as invisibilidades e as ressonâncias dessa realidade incorpórea que revela, para além da imagem, o que da imagem toca ao espírito, a imagem-afetação", explica Clarissa Alcantara. No espetáculo, são projetadas imagens emdiferentes superfícies, sobrepostas à presença da performer e às intervenções sonoras executadas. A música é executada ao vivo por Celso Nascimento (tambor e instrumentos de percussão) Naná Carneiro (voz, tambor, instrumentos de percussão e sopro.) e Wellison Pimenta (percussão). A coordenação técnica e projeção das imagens está a cargo de André Oliveira. A coordenação de produção é assinada por Regina Ganz.

SOBRE CLARISSA ALCANTARA

Clarissa Alcantara nasceu em Pelotas/ Rio Grande do Sul. Foi em seu estado natal, em 1988, que ela iniciou suas pesquisas no que ainda chamava de "Teatro de Essência", e criou a Cia Teatro Ousia, onde produziu o espetáculo Mary Stuart, de Denise Stoklos, em Porto Alegre. Com o propósito de desenvolver sua pesquisa sobre o conceito de "essência", fez a graduação em Filosofia. Logo após, o teatro de essência tornou-se tema de seu mestrado. Foi durante sua pesquisa de doutorado que surgiu a denominação Teatro Desessência, pesquisa que continuou emoutros dois pós-doutorados, sendo o último em psicologia clínica, por onde investiga sua prática artística como clínica esquizoanalítica.

Ao longo de toda sua pesquisa teórica, Clarissa produziu diversos experimentos artísticos, pondo em intersecção múltiplos conteúdos em diferentes modos de expressão, circulando por diversos estados do Brasil, Uruguai, França e Suíça.

SERVIÇO

VIDA EM DESBORDA

RITO I grito no abismo cartas para minha morta

RITO II nota pública: “para acabar com o juízo…”

MAP - Museu de Arte da Pampulha (auditório) -

Datas: Sexta a domingo, dia 30 de agosto às 19h e dias 31 de agosto e 1 de setembro

Horário: 19H (dia 30/08) e 18H (dias 31/08 e 01/09)

Duração aproximada: 80 minutos

Contato: (31)98373-2552

Classificação: livre

Entrada gratuita

Ingressos: https://www.sympla.com.br/vida-em-desborda__593154

RODA DE CONVERSA

Após as apresentações de sábado, haverá uma roda de conversa informal com o público que se interessar, para um diálogo sobre o processo de criação do trabalho.

REDES SOCIAIS

Facebook: https://www.facebook.com/serieperformatica/

Instagram: https://www.instagram.com/vida_em_desborda/

FICHA TÉCNICA

Concepção, direção e performance: Clarissa Alcantara

Dramaturgia: Clarissa Alcantara e Tereza Marinho

Videoartista: Tereza Marinho

Músicos percussionistas: Celso Nascimento, Naná Carneiro, Wellison Pimenta (VIOLA)

Concepção sonora: Celso Nascimento e Clarissa Alcantara

Coordenação técnica: André Oliveira

Operação de vídeo: André Oliveira

Figurino: Ana Virgínia Guimarães Álvares

Produção: Regina Ganz


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